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Caetano e a volta do exílio

Atualizado: 22 de Set de 2020


Caetano Veloso no documentário "Narciso em Férias"/ Foto: Divulgação

Disponível por ora com exclusividade pela plataforma de streaming Globoplay o recém-lançado documentário “Narciso em Férias” traz poucas novidades sobre um triste fato da história do Brasil acontecido logo depois da implementação do AI-5 em dezembro de 1968: a prisão e o consequente exílio de Caetano Veloso (e de Gilberto Gil) entre 1969 e 1971.


A produção é minimalista e impecável do ponto de vista da linguagem e estética. Temos no tempo todo apenas Caetano contando de forma cronológica os 2 meses em que esteve preso nas dependências do Exército no Rio de Janeiro. O período da solitária, a demora do interrogatório, a tortura psicológica, tudo isso está lá, assim como já esteve em outros depoimentos do artista e também em seu livro “Verdade Tropical”. “Narciso em Férias” encerra-se quando Caetano e Gil são colocados em liberdade monitorada em Salvador em fevereiro de 1969. Sigamos daqui por diante.


Ambos permanecem na capital baiana entre a quarta-feira de cinzas e julho daquele ano em condições análogas a de um regime semiaberto. Não podiam sair da cidade nem dar declarações públicas e todo dia tinham que ir à Polícia Federal se apresentar.

Com o exílio decidido, Caetano e Gil têm permissão para gravar um disco já previsto em contrato e também um show de despedida no Teatro Castro Alves com objetivo inclusive de arrecadar fundos. Após o espetáculo partem para Londres. O período é marcado por depressão e dificuldades de adaptação de Caetano enquanto Gil já encarava mais tranquilamente e também da famosa visita de Roberto Carlos aos exilados.


Em 1971, o autor de “Alegria, Alegria” consegue autorização para vir ao Brasil permanecer um mês para assistir à missa pelos 40 anos de casamento de seus pais. No Rio, é sequestrado por militares para comparecer a um interrogatório, no qual pedem que ele faça uma canção elogiando a rodovia Transamazônica, então em construção. Ele obviamente nega. No período faz participações combinadas com a ditadura em programas da TV Globo e fica proibido de cortar o cabelo. O objetivo era de tudo “parecer normal”.


Ainda naquele ano, CV retornaria mais uma vez ao Brasil para participar de um especial da TV Tupi com Gal Costa e João Gilberto, foi este aliás, que agilizou sua volta segundo o próprio Caetano em “Verdade Tropical”, dizendo que nada ia acontecer e que “Deus estava me pedindo para lhe chamar”.


Em janeiro de 1972 os dois artistas retornam em definitivo ao Brasil e são recebidos com festa na Bahia (há vídeos lindos disso). Acabam-se milagrosamente os interrogatórios, a proscrição e a perseguição. Houve um simples regresso e ambos seguiram a vitoriosa carreira até os dias de hoje.


Em entrevistas, Caetano e Gil sempre falaram desse retorno sem entrar em detalhes, mas evidentemente alguma coisa aconteceu. Um acordo entre o governo militar e os artistas? Ou estavam em um autoexílio como Chico Buarque fez entre 1969 e 1970? De qualquer forma, os exilados só retornaram ao Brasil com a Lei da Anistia em 1979 e eles em 1972. Claro que a prisão e o período do exílio são momentos tristes na história deles e do país e geraram sofrimento, mas a parte final desse episódio parece ter sido embelezada. Ou não, como diria o baiano de Santo Amaro da Purificação.


© Caio Bruno - 2020

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