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  • Caio Bruno

Didi na poltrona


Foto: Divulgação

O mercado de trabalho costuma ser cruel com quem chega a certa idade. No Brasil mais ainda e não costuma priorizar determinadas áreas. É assim na linha de montagem de uma fábrica e também no ramo do entretenimento. Antônio Renato Aragão, 85 anos, é a mais nova vítima dessa característica tão peculiar das empresas. Após 44 anos, seu vínculo com a Rede Globo foi encerrado no fim de junho.


Maior humorista vivo do Brasil na humilde opinião do articulista, Aragão faz parte do imaginário popular há pelo menos cinco décadas, criou e comandou o grupo humorístico mais bem sucedido da história pop do Brasil chamado “Os Trapalhões” ao lado de seu parceiro Dedé Santana (Mussum e Zacarias, peças-chave, foram recrutados anos depois). Anos e anos de sucesso na TV e no cinema com dezenas de filmes, boa parte deles com mais de um milhão de espectadores.


Seu alterego, Didi Mocó, é o retrato perfeito do brasileiro padrão daquela época e de hoje. Malandro, carismático, meio folgado, mulherengo e querendo levar vantagem sempre, algumas vezes tem um coração bom e solidário. No fundo só quer vencer na vida. É esse paradoxo que o faz ser o rosto cuspido e escarrado da nossa sociedade. Quantos Didis não existem por aí? Ele foi e é um sucesso porque as pessoas se identificam com ele. Está próximo de suas realidades.


Quando do anuncio de sua saída da Globo, surgiram nas redes sociais velhas fake news e concepções requintadas. A mais famosa é a do motorista que teria sido repreendido ao chamar o humorista de Didi. Esse personagem nunca foi localizado. Outra é a de detratar Aragão enaltecendo Mussum e Zacarias como os “únicos” engraçados. Bem, não desmerecendo os dois, mas o cérebro do quarteto, queiram ou não, foi o cearense de Sobral. Infelizmente por essas bandas parece que temos a idiota mania de criticar quem faz sucesso, quem tem talento.


Renato Aragão não soube se reinventar na TV. Comparar um esquete seu dos anos 1970 com um atual é chocante. Não parece a mesma pessoa. Ficou ultrapassado. Seu humor com o passar dos tempos descambou para o público infantil. Entretanto, crianças não assistem mais TV Aberta, as de classe média e alta vivem em seus streamings, celulares e tablets. As menos favorecidas brincam na rua. De certa forma, de uns tempos pra cá, o eterno trapalhão se reinventou nas redes sociais alcançando grande número de seguidores.


Para as empresas de comunicação, fica a grande questão de como desligar esses medalhões que há décadas vivem no subconsciente nacional sem criar rejeição. Para a sociedade em geral, o debate é se esse descarte profissional com idosos um dia vai mudar.

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