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  • Caio Bruno

Estranho saudosismo


Obra de Toshizo Nakane

Por que as pessoas têm saudade do que não viveram? Falam com nostalgia de fatos, pessoas, histórias e ocasiões que aconteceram quando elas ainda nem estavam por essas bandas. Pegamos uma pessoa da minha idade como exemplo. Quando nasci, em outubro de 1984, o Figueiredo e a turma do coturno já estavam batendo em retirada. Já não tínhamos a Elis, o Garrincha e o Vinicius. Noel Rosa e Machado de Assis então nem se falam. Se foram antes mesmo da minha avó nascer. Pelé já tinha parado de jogar, já não haviam cassinos, o Rio não era mais a capital federal e eu nunca vi uma TV preto e branco na frente (aliás, a pioneira TV Tupi também já não estava entre nós).


Ainda havia brincadeira de rua, como hoje ainda há, mas também somos da época do eletrônico, do videogame e do computador e, cá entre nós, dispendíamos mais tempo para o Atari e Super Nintendo do que para a pipa e o pião. As pessoas já andavam correndo, chegando tarde em casa e saindo cedo. Os finais de semana continuam os mesmos. O Netflix de hoje é a vídeocassetada do Faustão de ontem nos melancólicos fins de tarde de domingo.


Mas inevitavelmente as pessoas sentem falta e vivem em seus lamentos e recordações forjadas na imaginação. “Como era bom o tempo do Getúlio. O melhor presidente que tivemos”, diz a moça de 35 anos. “O Rio de Janeiro dos anos 1950 era um charme só. Bossa Nova, JK e Copacabana”, fala o senhor do alto de seus 30 anos que nunca sequer pisou na terra da Guanabara. A base para falar isso eu não sei, mas se assim elas ficam satisfeitas, então está tudo certo.


Outro dia em um encontro casual com um colega poucos anos mais novo que eu e morador de um bairro elétrico de uma grande cidade, ele me saiu com essa: “Como era gostoso antigamente, quando as pessoas ficavam na calçada sentadas conversando até tarde da noite, com rádio e às vezes música”. Bem, eu confesso que na minha infância morei em um bairro mais pacato e já não tinha mais essa característica típica do interior. No entanto, consenti com ele: “Que bons tempos né?”


Essa saudade de tempos que não se viveram, só mostra que estamos infelizes e não vivemos plenamente os dias atuais. O passado está aí para ser estudado e analisado, em alguns casos, reverenciado, mas quando se “vive” uma época anterior ao seu nascimento, aí é complicado.


A onda de lembrar, imaginar e sonhar com o Brasil de outrora ainda vai nos levar a ter saudades de coisas que não merecem voltar como a hiperinflação (“Bom mesmo era na época em que a inflação batia os 100% ao mês. Lembra das maquininhas de reajustar preços no supermercado?”), os animais em circo (“Que bonitinho era ver os leões e os camelos todos sujos e maltrapilhos”) e pasmem até da turma do Figueiredo que eu citei lá em cima no começo do texto. Ops, mas dessa rapaziada verde-oliva já há quem sinta falta.


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