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  • Caio Bruno

Fala chapa!


6 horas da manhã. Passa um caminhão carregando canos e tubos plásticos com placa da Bahia. Claudionor Soares, 57 anos, avança um pouco rumo á pista ,se coloca quase na frente do veículo e esboça um sinal com a mão como aqueles que se usam para chamar o ônibus. O caminhão passa reto, o ignora. Claudionor retorna para o acostamento onde fica ao lado de uma placa marrom  em que está escrito com letras garrafais “CHAPA”.  Essa cena se repete diariamente na vida dele e de tantos outros nas estradas do país afora , que batalham sol a sol seu sustento como ajudante de caminhoneiros. “Não tenho escolha. É o que me sobrou pra fazer da vida”, diz ele.


Todo dia o despertador toca às 4 da manhã na casa nº 231 da Rua Florida, Vila do Trovão, na Zona Norte de São Paulo e Claudionor acorda para mais um dia de luta incerta. Banho tomado, barba feita,  bigode aparado, maleta com alguns pertences pessoais ,um beijo na esposa e nos filhos e segue ele para a Via Anchieta.  Duas conduções e 1 hora e 15 minutos depois lá está ele,  plantado no acostamento á espera de algum caminhoneiro perdido para guiar ou alguém que necessite de seus serviços braçais.


Um “Chapa” cobra aproximadamente 50 reais por um dia de trabalho, que pode durar duas  ou até 14 horas, os escassos clientes de Claudionor são pessoas que vem de longe, de outros estados, geralmente com destino ao Porto de Santos ou fazem pequenas entregas nas cidades do ABC. “Alguns nem param, outros xingam a gente de bêbado e vagabundo”, diz.  De fato a bebida é um problema para esses profissionais. Devido ao ócio ou a alguma pré-disposição para o alcoolismo ás vezes  passam o dia se “esquentando” á espera dos clientes, o que resulta em vexames ou mau profissionalismo.  Claudionor conta que certa vez um colega completamente bêbado foi fazer um serviço e meia hora depois caiu no sono e começou a passar mal.  Nosso “chapa” diz que não bebe, apesar de ter tido pai alcoólatra e de quando mais moço  ter tomado “umas caninhas, como qualquer pessoa”.


Perguntei a ele então: “O que fazer para passar o tempo?”, com um sorriso triste nos lábios me diz: “Conversa fora. Não tem outro jeito. Ou tem?”, respondeu de forma curta. Aliás, em nossa conversa toda ele sempre respondeu com poucas palavras, meio desconfiado. Deve ser pelo fato de trabalhar e conviver com desconhecidos o tempo inteiro o que faz aflorar o instinto de sobrevivência de cada um de nós.


Um caminhão para. Quer ir para Diadema, entregar tubos de PVC e não sabe chegar lá. Claudionor dá o seu valor e ainda oferece seus préstimos de ajudante. O caminhoneiro bronqueado diz: “Vou pelas placas que é melhor e mais barato!”. O “chapa” volta para seu canto mais uma vez. Aproveito e pergunto se é sempre assim e qual a média de serviços por dia. “Uns 3 por semana, tá cada vez mais fraco. O que fazer?”.  Tento perguntar sobre seu passado profissional, mas ele não responde. Parece esconder algo ou não confiar em mim, diz apenas que está nessa “quase a vida toda”.


No final, olhei nos olhos dele e pedi que falasse o que quisesse o que tivesse vontade de dizer para as pessoas que passam com seus carros todo dia pela estrada o ignorando ou maldizendo.  E ele com uma sabedoria marota que só a arte de sofrer na vida ensina diz: “Digo nada. Eu sei quem eu sou e meu trabalho não deve nada ao deles”.  Concordo Claudionor, eu concordo!

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