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  • Caio Bruno

Maracanã, 70: uma crônica saudosa




Foto: Arquivo Nacional

Neste 16 de junho de 2020 o estádio Mário Filho, o mundialmente conhecido Maracanã comemorou 70 anos de sua inauguração. Tive a oportunidade de conhecê-lo em abril de 2014 um pouco depois de sua reinauguração e meses antes dele sediar uma final de Copa do Mundo pela segunda vez, quando a Alemanha bateu a Argentina por 1 a 0 e se sagrou tetracampeã do mundo.


Confesso que não senti a mística tão falada. Fui ao local de metrô, ao descer na estação e ver aquele monumento realmente é arrepiante. Um estádio colossal com sua estrutura externa tombada e histórica, mas dentro, um bom e funcional palco futebolístico, mas como tantos outros no mundo. É a modernidade, eu sei.


Acompanhei algumas manifestações da imprensa em celebração ao aniversário e devo dizer que não concordo com a narrativa oficial de juntar tudo em um estádio só. Do velho, só restou a estrutura, como disse, e o nome.


Faço minhas as palavras do ex-jogador Romário, que em depoimento para a imprensa esses dias declarou que “havia um Maracanã verdadeiro e não esse que está aí”. O baixinho faz coro com o texto que escrevi em 2013 e que republico abaixo. De qualquer forma, parabéns Maracanã!

“Domingo, eu vou ao Maracanã?” (4/6/2013)


Em 1972 Raul Seixas e Sérgio Sampaio cantaram na obscura e nada conhecida música chamada “Êta Vida”. “Moro aqui nessa cidade que é de São Sebastião, tem Maracanã domingo. Pagamento à prestação”


Três anos depois, o carioquíssimo Jorge Ben dizia em “Cuidado com o Buldogue: “Bem feito, não vai poder ir pro Maracanã. Pois não vai poder sentar naquela arquibancada, dura, áspera e quente. Só vai poder ficar em pé, só se for na Geral”.

Nos anos 80, Neguinho da Beija Flor imortalizou: “Domingo, eu vou ao Maracanã, ver o time que sou fã”.


Pois bem, fundado em 1950 para a Copa do Mundo daquele ano. O Maracanã (chamado oficialmente de Mário Filho) foi tema de dezenas de músicas, obras de artes, fotos e textos nesses 63 anos de existência. Mais do que mítico para o futebol mundial, o estádio que por muito tempo foi considerado o “maior do mundo” fez parte da cultura carioca e nacional. Um patrimônio do Brasil. Cartão Postal e programa preferido de turistas e nativos da Cidade Maravilhosa, foi palco de jogos históricos e eventos inesquecíveis nessas décadas.


O velho Maraca era a alma do carioca, o programa de domingo preferido, a emoção garantida. Como não lembrar e citar aqui a mais que clássica Geral e seus Geraldinos. Torcedores de todos os tipos e times que pagavam um preço irrisório para ficar no local mais próximo, mas ao mesmo tempo pior do campo que – de pé – vibravam e se amontoavam a cada gol de seu time.

Foi-se o tempo dos estádios gigantes, do amontoado de gente sem conforto nenhum, do futebol arte e do espetáculo que beirava o romantismo. O Maracanã, claro, acompanhou essa evolução natural. Sofreu reformas, se adaptou. A gigantesca arquibancada recebeu cadeiras, o setor das lendárias Cadeiras Azuis engoliu a Geral. Mas o charme do “maior do mundo” se mantinha.


Até que veio esta bilionária “reforma”, de três anos, para a Copa do Mundo de 2014. Uso a palavra reforma entre aspas aqui, pois só permaneceu parte da estrutura externa que é patrimônio tombado e não podia ser demolido, já o restante foi quase tudo pro chão. É um outro estádio, esse que foi inaugurado domingo passado no amistoso entre Brasil e Inglaterra.


E pior do que acabar com um templo sagrado, cujo apenas o nome é o mesmo. É a bajulação e o interesse econômico de emissoras de TV e outras entidades em dar o mesmo significado ao novo Maracanã, que o velho tinha. Não é a mesma coisa, o charme não é o mesmo. Claro que não é um estádio feio, longe disso, mas é um local frio e comum como dezenas de outros por aí. Perdeu a identidade e o encanto.


Mas esse pseudosaudosismo do escriba aqui e de tantos outros vai passar. As novas gerações não se lembrarão do velho Maraca e talvez quando verem fotos e vídeos dele irão se questionar: “Mas é desse estádio tosco, sem conforto e amarrotado de gente que vocês têm saudade?”


Para nós, vão restar os textos, as crônicas e as músicas. Que seja bem-vindo o novo estádio.

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