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  • Caio Bruno

Maradona e a sina da América do Sul




O Brasil de junho de 1990 era um outro país. Estávamos quase todos lascados com esses mesmos problemas de sempre e mais o agravante do dinheiro confiscado por obra e graça do Plano Collor. Mas era época de Copa do Mundo na Itália e a seleção mesmo com um plantel dos mais fracos de sua história e com um técnico que foi linchado tal qual Judas em Sábado de Aleluia e que nunca mais conseguiu seguir sua carreira de forma regular, ainda despertava esperanças e unia minimamente esse nosso país-continente. A camisa amarela era simplesmente o uniforme da seleção e pronto.


No alto dos meus 5 anos de idade, trago vívida a lembrança da festa que foi a passagem da desacreditada equipe nacional para as oitavas e o temor que era pegar a Argentina, então campeã mundial que vinha de uma campanha claudicante. Apesar do Brasil ter tido nessa partida seu melhor desempenho, o placar, como todos sabem, terminou com vitória portenha por 1 a 0, gol de Caniggia após um magistral lance do camisa 10 do time. Seu nome? Diego Armando Maradona.


Foi assim que tomei conhecimento de Maradona. O detestando. Como todo o brasileiro assim o fazia naquela época. Seja pelo estilo, pelas polêmicas ou (o mais provável) pela sua genialidade com a bola e por pura inveja e rivalidade por ele não ser brasileiro e sim argentino.


Criança e apaixonado por futebol que era acompanhei absolutamente todos os jogos da Copa seguinte, a dos EUA em 1994 e lembro daquela comemoração de seu gol contra a Grécia e de seu posterior ocaso, eliminado do torneio por doping. Maradona sempre foi para mim e para todos os brasileiros um cara que a gente admirava, mas não dava o braço a torcer. São aqueles teatrinhos que encenamos na vida e que nos fazem perder tempo e oportunidades.


O tempo passou e Maradona se foi no último dia 25 de novembro de 2020. Não presenciei o seu auge na Copa de 1986 e no Napoli e nem concordava com tudo que ele fazia fora de campo. Mas isso realmente pouco importa. Diego Armando Maradona é a cara da América do Sul. Talentoso, errático e lutando contra si e contra o seu destino. Ele venceu, rompeu as fronteiras, mas nunca se esqueceu da onde veio e da sua sina. Para o bem e para o mal.


Comecei o texto falando de minha experiência como brasileiro com Maradona e comparo ela com nossa postura como país perante a América do Sul. Sempre de costas para o resto do continente. Não veremos mais um jogador de futebol como Maradona. Era único. Mas ainda anseio, mesmo com todas as barreiras impostas por cultura e idioma, uma integração brasileira com sua própria casa.

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