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  • Caio Bruno

O sequestro dos símbolos nacionais



No último dia 18/5 teve início no Twitter uma campanha motivada por alguns influenciadores digitais de “resgate” da bandeira nacional e do orgulho de ser brasileiro. O argumento é de que o símbolo pátrio é de todos e não somente de um determinado grupo que a utiliza para demonstrar apoio político. No caso, os partidários do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).


Aprofundando o tema, chegaremos à conclusão de que estes emblemas sempre foram “sequestrados” de alguma maneira para uso de nichos, é uma tática que ocorre no mundo há tempos e no Brasil não poderia ser diferente.


O primeiro a usar do expediente em escala foi Getúlio Vargas durante o Estado Novo (1937-1945). O gaúcho promoveu a apropriação dos símbolos da pátria e os incorporou ao seu governo. Sob clara inspiração do fascismo europeu, GV promovia culto à figura, distribuía folhetos e cartilhas com seu rosto e a bandeira brasileira, manifestações com grande público em ruas e estádios onde todos agitavam pequenas bandeirolas e chegou até ao ponto de proibir e promover uma cerimônia de queima das flâmulas dos estados, a única permitida era a nacional.


O ufanismo foi crescendo aos poucos nos anos JK (1956-1961) com a conquista da Copa da Suécia de 1958 e novamente os elementos da nação foram incorporados pelo Estado durante a Ditadura Militar (1964-1985). Navegando no tricampeonato de futebol em 1970, em slogans como “Brasil: Ame-o ou Deixe-o” e “Ninguém Segura Este País” e em campanhas publicitárias com músicas de triste memória como “Eu te amo, meu Brasil” e “Pra Frente Brasil”.


O movimento pelas Diretas Já (1984) arrancou dos militares a bandeira e o hino e o trouxeram de volta para o povo. Fernando Collor tentou em seu governo (1990-1992) enveredar pelo nacionalismo das massas e recebeu como troca caras pintadas e pessoas saindo de preto às ruas pela sua deposição.


Após um período inerte, os símbolos voltaram a ser utilizados politicamente a partir dos protestos contra o 2º. governo Dilma Rousseff e seu impeachment em 2016. Eram os patriotas contra os vermelhos. Atualmente, os “verdadeiros” brasileiros são os que defendem o governo Bolsonaro. Quem não apoia está “contra” o Brasil.


Nesse ponto, a ação iniciada no Twitter tende a ser benéfica e a tentar alterar a narrativa dentro da bolha. Mas é só isso e nada mais. O brasileiro se acostumou ao longo de séculos a não ter o menor orgulho de sua pátria, é o famoso “complexo de vira-latas” eternizado por Nelson Rodrigues. Mudar requer transformações estruturais em nossa sociedade. Enquanto isso vamos continuar vendo a bandeira, o hino, o brasão e tudo mais sendo sequestrados aqui e ali.

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