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  • Caio Bruno

Olha o trem: a história da Estação Ferroviária de São Caetano


(Estação São Caetano em 1956. Foto: Acervo/ Fundação Pró-Memória de São Caetano do Sul)


São Caetano do Sul, 2020. Nas proximidades do Terminal Rodoviário, mais precisamente na Rua Serafim Constantino s/nº, no Bairro Centro, e na Rua Perrella, s/nº, no Bairro da Fundação, no meio da paisagem de carros, ônibus e pessoas na rotineira correria frenética de compromissos, trabalhos e deslocamentos, está instalada a estação ferroviária da cidade. Atendendo às expectativas de locomoção de milhares de frequentadores dia após dia, o local completa em 1º de maio 137 anos de sua inauguração. E é a história dessa importante engrenagem sul-são-caetanense, contemporânea da fundação do município e que antecede – e muito - a autonomia político-administrativa, que iremos retratar agora.


Construída pela companhia ferroviária São Paulo Railway Company (SPR - popularmente conhecida como A Ingleza), no Núcleo Colonial de São Caetano, apenas seis anos depois da chegada dos primeiros imigrantes italianos que fundaram o local, a estação foi inaugurada em 1º de maio de 1883, no ponto de cruzamento de um antigo caminho do mar, então uma área rural dentro do lote do colono Luigi Baraldi.

Chamava a atenção, nessa época, a arquitetura do prédio com nítida influência de traços ingleses vitorianos e com semelhanças com a Estação da Luz, também construída pela SPR, mas em 1867. Era toda de tijolos aparentes, plataformas amplas e portões de ferros com passarelas, espaços para trens de carga e de passageiros, guichês de compra de bilhetes e armazém para despacho de mercadoria.

Neste primeiro período de existência, a estação teve papel importante para o comércio de São Caetano com o escoamento de produção e o recebimento de mercadorias e matéria-prima. Para a população outro avanço: o transporte para a capital, São Paulo, e demais localidades abastecidas pela linha de trem da Ingleza se tornou mais rápido e prático, aumentando assim as opções de trabalho, estudo e lazer como as realizações de piqueniques, por exemplo.


Diferentemente dos dias atuais, onde se tornou um dos meios de transporte mais econômicos e populares, naquela época as classes mais abastadas é que utilizavam a ferrovia. Os trens passavam de meia em meia hora e tinham duas classes. A primeira contava com assento de vime e capa branca no encosto, já a segunda oferecia menos refinamento e permitia o carregamento de animais.

Os trens dessa época, aliás, eram movidos a carvão, proveniente do Chile. Com a escassez promovida pela I Guerra Mundial (1914-1919), o combustível passou a ser a lenha. Tempos mais tarde somente, passou para a eletricidade dos dias de hoje.

E por falar em belicismo, a Estação de São Caetano foi tomada pelas tropas legalistas do Exército durante a revolta paulista de 1924. Deflagrada por conflito de interesses do governo federal (à época comandado pelo presidente Artur Bernardes) e militares de baixa patente instalados em São Paulo, a ação culminou com o bombardeio aéreo da capital paulista e deixou mil mortos e quatro mil feridos e durou de 5 a 28 de julho daquele ano. Uma casa em frente à estação foi estabelecida como sede do estado-maior dos fiéis ao poder central.


São Caetano crescia a passos largos, bairros eram formados (inclusive o hoje Centro se formou nos arredores e graças ao surgimento da ferrovia) e a população aumentava. Em 24 de outubro de 1948, o subdistrito de Santo André se tornou município conquistando a tão sonhada emancipação político-administrativa. É desse período também, em 1946, o fim da SPR. Todas as suas estações, trens e ferrovias foram encampadas pelo governo brasileiro, que criou a Estrada de Ferro Santos-Jundiaí (EFSJ), que posteriormente (em 1957), junto de outras ferrovias, formaria a estatal federal Rede Ferroviária Federal Sociedade Anônima (RFFSA) sendo sua subsidiária até 1969, quando foi extinta de vez.


Independente das questões políticas e econômicas havia um fato consumado: a velha estação do século 19 estava ficando pequena demais. Em 1958, a RFFSA já tinha em seus planos a construção de uma nova unidade em São Caetano em substituição à antiga, como mostra reportagem de O Estado de S.Paulo, de 23 de novembro daquele ano:

"A maior parte da população se serve dos comboios da EFSJ. A Estação local, no entanto, não apresenta o conforto exigido pelos usuários da ferrovia. A direção da RFFSA cogita de reformar o prédio ou construir nova Estação de embarque e desembarque, cujas instalações são por demais acanhadas."

Após diálogo entre prefeitura, RFFSA e governo federal, na década de 1960, iniciaram-se as primeiras ações para a construção da nova Estação Ferroviária de São Caetano. No caderno de prestação de contas de seu primeiro mandato à frente da prefeitura (1965-1969), Hermógenes Walter Braido anunciava que deixara as “bases para o novo Centro da cidade que surgirá com a construção da nova Estação da Estrada de Ferro Santos-Jundiaí cujas áreas já foram desapropriadas pela prefeitura”.


De fato, no ano seguinte já sob o governo de Osvaldo Samuel Massei (1969-1973), a estação de 1883 foi demolida e, em 25 de agosto de 1970, teve início a construção do novo prédio, cujo projeto foi de autoria do arquiteto Franco Polloni. Matéria publicada em O Estado de S.Paulo, em 28 de agosto daquele ano, relata algumas características que a nova unidade teria de acordo com Polloni:

"A Estação será composta por dois corpos interligados por uma passagem inferior que dará acesso às plataformas. O acesso será feito por escadarias. O arquiteto ainda justifica a utilização de concreto, vidro, alumínio e painéis de alvenaria por destacar a funcionalidade e a função de cada objeto, levando ao transeunte o absorver e despejar de pessoas que é a função de uma Estação. "

O texto, assinado apenas como Sucursal do ABC, fala sobre o desafio da construção do novo edifício tendo em vista o tamanho da área:


"A dificuldade maior foi o fato de que São Caetano conta com o menor espaço dentre as estações da extinta EFSJ, o empreendimento só foi possível graças a um acordo com a Prefeitura que desapropriou vários imóveis no local. Assim, a nova Estação ocupará uma área adicional de 4.700 metros quadrados e será entregue até o final de 1971."


Com a construção demorando mais do que o previsto, em 20 de dezembro de 1973, 90 anos após a primeira inauguração, foram entregues à população as novas instalações da Estação Ferroviária de São Caetano. A atividade contou com a presença de muitos populares e de diversas autoridades, sendo a mais célebre delas o ministro dos Transportes de então, Mário Andreazza, que, ao lado de Hermógenes Walter Braido (já em seu segundo mandato, de 1973 a 1977), cortou a fita do novo prédio.


Desde 1992, a Estação São Caetano faz parte da malha ferroviária da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) e atende aos passageiros da linha 10 Turquesa que faz o trajeto Brás-Rio Grande da Serra.

Em 19 de dezembro de 2014 foi promulgada pelo governo do Estado de São Paulo a lei nº 15.623, alterando o nome da estação, que passou a se chamar Estação São Caetano - Prefeito Walter Braido, homenageando o ex-chefe do Executivo sul-são-caetanense, falecido em 2008 e que inaugurara o novo prédio.

Passados 137 anos, com novas instalações e novo nome, a estação continua cumprindo o seu papel: o de ser o ponto de encontro, referência, chegada, passagem e partida de seus usuários todo santo dia.


(Artigo publicado originalmente na Revista Raízes nº58 em julho/2018)

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