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  • Caio Bruno

Pelé, 80



Hoje Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, Rei do Futebol completa 80 anos. Sem dúvida nenhuma, é o maior nome do futebol mundial e o brasileiro mais famoso do Planeta. Entretanto, uma parcela do Brasil torce o nariz para o ex-jogador octogenário. Em cada aparição ou em cada postagem nas redes sociais sempre acontece uma enxurrada de comentários odiosos contra o ex-jogador com ofensas pesadas e sem muita argumentação lógica.


Um caso clássico de massa de manobra. Antes de irmos à reflexão, devo dizer que não concordo 100% com tudo que o mineiro de Três Corações fez e faz, pelo contrário, mas isso não me impede de achar que Pelé é subvalorizado completamente pelos brasileiros que se agarram a argumentos hipócritas e pífios para destilar ódio ao ex-camisa 10 da Seleção.


O principal argumento dos detratores do Rei é a de que é um “crápula” que não reconheceu uma filha biológica. Sandra Regina Arantes do Nascimento, com quem travou batalha jurídica ferrenha e foi derrotado. O teste de DNA provou que ela era sua filha e mesmo assim Pelé nunca se aproximou dela. Sandra faleceu em 2006 aos 42 anos de câncer sem ter tido contato com seu pai.


É um ato que beira a crueldade? É. É um feito que chamuscou muito sua imagem? Sim. Entretanto, é um fato da vida pessoal do ex-jogador. Não devemos nos intrometer, ou temos procuração para fiscalizarmos e virarmos guardiões da vida dos outros? É hipocrisia! Afinal, alguns dessa turma que detratam com tanta moralidade alguém que não conhecem pessoalmente provavelmente são amigos ou tem familiares de pessoas que fazem coisas iguais ou semelhantes como ter amantes, bater na mulher, cometem pequenos atos de corrupção, entre outras picaretagens, e, no entanto frequentam casa, tomam cerveja juntos, entre outras coisas. E aí? Como fica?


Esse argumento utilizado pelos brasileiros de não reconhecimento da filha é apenas uma cortina de fumaça para um motivo bem mais triste e intrínseco: não gostam de Pelé porque no Brasil fazer sucesso é ofensivo.

Somos um povo que sempre foi subjugado. Foi a colonização, a fé cristã, a escravidão, a política e todos os demais contextos históricos que nos fizeram ter uma autoestima negativa. Não acreditamos em nós, em nosso potencial, em nosso trabalho e nem em nada que surja aqui. Tudo de fora é melhor, os outros povos são mais civilizados e nos contentamos com migalhas em tudo. É o que Nelson Rodrigues chamou sabiamente de “Complexo de vira-latas”.


Aqui, por força dessa criação da sociedade brasileira, o correto é ser medíocre. O sucesso e o destaque são motivo de críticas, inveja, detração e injúria e não de admiração e exemplo. É aí, na minha opinião, a base dessa ojeriza de muitos de nós a pessoas como Pelé, Roberto Carlos, Renato Aragão e tantos outros.

Soma-se a essa questão enraizada outra tão forte quanto: Edson Arantes é negro. E nós, fomos e somos racistas. Velados, disfarçados em brincadeiras e piadas, mas somos. Isso aumenta ainda mais esse asco.


Outro argumento proferido entre os que não gostam do ex-jogador do Santos e do Cosmos é a de que ele não se posicionou sobre o governo militar (1964-1985) e ao fazer o milésimo gol em 1969 dedicou “às criancinhas”. Concordo. Ele poderia usar seu poder de mídia para, senão denunciar ao mundo as barbáries dos generais, levantar a bandeira do fim do preconceito, talvez. Preferiu lavar as mãos. Como tantos outros “heróis” daquela época e como mais de 80% do povo brasileiro desses tempos idos que adoravam Médici e sua turma no auge do Milagre Econômico. Meus e seus avós provavelmente inclusos nessa. Mais uma vez pegamos os argumentos pela hipocrisia.


Pelé é o brasileiro mais conhecido do Planeta Terra. Talvez sempre seja. Maior jogador de futebol da história. Talvez sempre seja. É uma instituição nacional e como tal tem defeitos, erros e características bem peculiares. É um espelho de uma nação sem identidade, carente de heróis e autodestrutiva em certos pontos. Talvez sempre sejamos assim.


Mas que tal contrariarmos essa lógica de só reconhecermos as pessoas depois que elas

morrem, de não termos orgulho de nada produzido aqui, relevar os erros (e assim relevarmos os nossos também) e acertarmos os ponteiros com o eterno camisa 10 da seleção brasileira?


© Caio Bruno - 2020

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