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  • Caio Bruno

Ser otário na pandemia


Foto: Aglomeração no Leblon no dia da reabertura dos bares no Rio de Janeiro no início de julho/ Divulgação

Aqui pela terra descoberta por Cabral, engana-se quem imagina que os mais ofensivos palavrões são aqueles em que a genitora do interlocutor é ofendida. O brasileiro, por baixo da manta de bonzinho e cordial, é tão egocêntrico que pegar pesado é xingá-lo de rótulos perante a sociedade. Falada sem maiores pudores em novelas, programas de TV, textos, livros e no dia a dia, o vocábulo otário é um desses impropérios que mexe com os brios.


Ser um otário no Brasil não é como em outros lugares do mundo. Aqui, o significado é outro e quase sempre diz respeito à pessoa certinha, cumpridora das leis e das normas e que no fim das contas é sempre passada pra trás pelos malandros, os verdadeiros sabedores e os “corretos” da nação, os que “sabem viver”.


Em tempos de pandemia, por exemplo, cumprir os cuidados necessários, se manter em quarentena e em isolamento social é se sentir um otário. Afinal, basta abrir as redes sociais e ligar a televisão para ver praias lotadas, aglomerações a todo vapor, reuniões em casa de amigos e tudo mais que foge a qualquer bom senso.


Depende do lugar que você frequenta, pode ser que encontre um tipo muito comum nos dias de hoje, o do cidadão que não usa máscara e não se precave. Ao te ver, mascarado e com um frasco de álcool em gel no bolso, pode em pensamento ou na fala mesmo, te rotular logo como um otário. Afinal, o vírus não é “tudo isso que falam”.


Quem não tenta levar vantagem sempre, mesmo que seja no Auxílio Emergencial do Governo para as pessoas de baixa renda durante o período pandêmico também é otário. Afinal, eles pensam, o dinheiro é do povo, não custa tentar. E nem adianta explicar a origem e o objetivo da ação. É capaz de se ouvir: “E você tá pensando que eu sou otário é?”


Aliás, para os espertões que não têm um pingo de empatia e de responsabilidade coletiva e que colocam os interesses pessoais acima dos gerais se esquecendo oportunamente que vivem em uma sociedade não dá para se ter muito diálogo. Eles vão estar sempre certos. Segundo a régua moral deles, claro.


Nós estamos indo para quatro meses de uma quarentena para inglês ver. Um distanciamento social mais meia boca impossível. Não conseguimos fazer um mísero dia decente de isolamento. A curva da doença não estabiliza nunca e os motivos são vários, uma delas são os tipos que citei aí em cima. Os verdadeiros otários.


© Caio Bruno - 2020

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