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  • Caio Bruno

Soldo familiar



Desde a Guerra do Paraguai (1864 – 1870), as Forças Armadas desempenham papel de maior ou de menor influência na vida brasileira. A Proclamação da República, por exemplo, é obra de um grupo militar liderado pelo Marechal Deodoro Fonseca que aplicou um suave golpe (sem derramamento de sangue) no imperador D.Pedro II em 15 de novembro de 1889 mudando o sistema de governo para aquele que vigora até hoje.


Já nada suave foi o regime militar instaurado em 1964 e que durou até 1985. Em outros momentos, as Forças Armadas estiveram do lado da democracia como nas quarteladas fracassadas de 1956 para depor Juscelino Kubitschek (1956-1961) e no período da Constituição de 1988.


Entretanto em nenhum desses períodos, a presença de militares empregados e encrustados na máquina pública foi tão grande quanto no atual governo federal. Aqui nem vamos falar das patentes do presidente e do vice e tampouco dos 11 integrantes ministeriais de farda, mas sim dos mais de 6.1 mil integrantes das Forças Armadas que ocupam cargos civis na atual gestão. Número nunca antes visto.


Importante ressaltar que não há nenhum impeditivo jurídico legal para que os cidadãos brasileiros militares integrem e ocupem cargos públicos desde que, em alguns casos, cumpram-se requisitos. O que chama atenção é o eventual gosto que algumas figuras tomaram pelo apadrinhamento de familiares em nomeações em setores e administrações correlatas ou mesmo em sua própria área, a questionável “boquinha”, como se diz no português das ruas.


No último dia 21 de julho, a imprensa noticiou que Isabela, filha do Ministro da Casa Civil, General Braga Netto, havia sido aprovada pela própria pasta que o pai comanda para assumir um cargo em comissão na Agência Nacional da Saúde (ANS) com salário de R$13 mil mensais. Após a negativa repercussão, ela desistiu da nomeação.

Dois outros generais têm sua prole com um bom emprego público sem concurso. A filha do ministro interino da Saúde Eduardo Pazuello, Stephanie exerce a função de supervisora da Diretoria de Gestão de Pessoas da Empresa Pública de Saúde do Rio de Janeiro S.A, a RioSaúde. Já Adriana Villas Bôas, filha de Eduardo Villas Bôas, ex-comandante do Exército e atual assessor especial da Presidência, ganhou um cargo de confiança no Ministério dos Direitos Humanos desde novembro.


Não se discute aqui a competência técnica das pessoas citadas e nem se houve influência dos pais ou não, mas sim o quanto isso no final das contas respinga na imagem consolidada de austeridade e seriedade das Forças Armadas que são uma instituição permanente de Estado e não de governo. A conferir como a história julgará essa postura.


© Caio Bruno - 2020

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