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  • Caio Bruno

Vanusa, Alzheimer e o feminismo


Cantora Vanusa, 73 anos - Foto: Divulgação

De acordo com declarações de sua filha Aretha publicadas pela imprensa na primeira semana de agosto, a cantora Vanusa está com Mal de Alzheimer em estado avançado. Não reconhece mais ninguém e não se consegue estabelecer mais diálogo com ela. “Minha mãe se tornou uma criança”, disse a mulher cujo pai é o falecido cantor Antônio Marcos. Talvez quando ela tenha virado meme ao se esquecer completamente do hino nacional em uma apresentação em 2009 já tenha sido o início da doença.


Sua carreira artística iniciada em 1967 na fase final da Jovem Guarda e depois com discos de vanguarda flertando com o rock e a MPB nos anos 1970 é pouco revisitada. Menos ainda é o papel que a cantora teve em outra área: em tempos de feminismo em voga e do empoderamento das mulheres é importante lembrar sua trajetória nesse setor.


Nascida na cidade limítrofe paulista de Cruzeiro em 1947, Vanusa Santos Flôres encarou o machismo e o patriarcado desde cedo, em casa, deu os primeiros passos na carreira ainda jovem cantando em rádio e sofreu forte oposição do pai. Vítima de violência doméstica se atracou com seu genitor cansada de apanhar e saiu de casa.


Seus casamentos, com figuras como o já citado Antônio Marcos e o diretor de televisão Augusto César Vanucci foram conturbados e também cercados de violência. “Fui covarde porque apanhei de alguns maridos e não os denunciei para não prejudicar minha carreira", disse certa vez em entrevista.


Essas histórias, inclusive, se tornaram faladas na época pelas revistas populares do mundo do entretenimento, mas nunca no sentido de denunciar as agressões e os abusos, mas sempre contemporizando como brigas rotineiras de um casal. Estávamos no Brasil da ditadura militar e em um país (ainda) extremamente machista.

Vanusa de alguma forma externava seus desabafos em forma de mensagens cifradas em suas canções como a clássica “Manhãs de setembro” (1973) e “Eu Sobrevivo” (1981).


Se hoje reverenciamos mulheres heroicas e fortes como Elza Soares e Rita Lee que abriram espaços e são padrões de resistência devemos colocar Vanusa nesse panteão. Mesmo que ela não se lembre mais quem foi e o que fez. A notícia da situação da cantora não reverberou em quase nenhum lugar, menos ainda com o enfoque de sua luta contra o machismo. Espero que seja por desconhecimento desse lado de sua história e não por ser uma cantora realmente popular, que tocava na rádio AM e era ouvida nos rincões das cidades e do país. Sabemos que há quem torça o nariz para artistas assim. O velho preconceito elitista cultural.


© Caio Bruno - 2020

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